Governo adia aposta em energia limpa
Tribuna do Norte
Em 2009, o Brasil assumiu o compromisso de reduzir emissões de gases de efeito estufa limpas.
A crise dos reservatórios no início do ano acendeu a luz amarela do
Ministério de Minas e Energia e evidenciou a necessidade de ampliar a participação das térmicas na matriz. Sem gás natural barato disponível, a solução
foi recorrer ao carvão, uma das mais poluentes fontes de geração. Esse
movimento diminuirá o espaço para as eólicas, que há quatro anos vêm
dominando os leilões do setor.
A tendência ficou clara quando a Empresa de Pesquisa Energética (EPE)
excluiu as usinas eólicas do leilão de energia nova que contratará a
demanda das distribuidoras em 2018 (A-5), marcado
para agosto. Isso foi significativo porque o leilão A-5 aponta para os
agentes a direção da expansão da matriz energética no País. O temor do
governo era de que, ao misturar eólicas e térmicas na licitação, apenas
as eólicas fossem contratadas, dado o baixo custo de geração. "Esse é o
momento de equilibrarmos a matriz e darmos mais espaço para as
térmicas", afirmou o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim.
Segundo ele, a montagem da matriz energética é um processo artesanal,
no qual a EPE olha as necessidades do País para definir a expansão das
fontes. Por falta de projetos hídricos, o ministério permitiu a
contratação de um grande volume de termelétricas para o atendimento da
demanda nos leilões até 2008.
Em 2009, o Brasil assumiu o compromisso de reduzir emissões de gases de
efeito estufa, e a EPE passou a desestimular a contratação das
térmicas, principalmente as mais poluidoras - a carvão, óleo combustível
e diesel. Nesse meio tempo, avanços tecnológicos reduziram
substancialmente o preço da energia eólica, produzindo um avanço notável
da fonte na composição da matriz brasileira.
O saldo dos leilões mostra que as eólicas representam 11% da energia
contratada pelo governo desde 2005, com 7,04 mil MW. Isso produzirá um
salto na capacidade da fonte, dos 2,5 mil MW para 8,83 mil MW. Além
disso, a energia eólica se consolidou como a segunda fonte mais barata
do País, com valor médio nos leilões de R$ 137,01/MWh, atrás somente das
hidrelétricas.
Ainda que a expansão tenha contribuído para limpar ainda mais a matriz
brasileira, a predominância da eólica trouxe preocupações sobre a
operação do sistema por ser uma fonte intermitente de energia. Uma das
principais vozes a manifestar essa apreensão é o próprio diretor-geral
do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp. Há tempos
ele vem alertando sobre a perda gradual de regularização dos rios
brasileiros com a construção das hidrelétricas a fio d'água (sem
reservatório). Além de perder a capacidade de armazenar água, essas
usinas têm alto nível de variação na produção de energia por depender da
vazão dos rios.
O coordenador do Grupo de Estudos do Setor de Energia Elétrica
(Gesel/UFRJ), Nivalde de Castro, vê com bons olhos essa mudança no
planejamento. Segundo o especialista, o que se via até então era o
planejamento "ex-post", uma vez que a matriz era construída após os
resultados dos leilões. Ao priorizar as térmicas, o governo reverte essa
lógica. "Estamos partindo para a construção de uma matriz estratégica."
De fato, os leilões organizados até o ano passado só consideravam o
menor custo da geração, sem levar em conta os de transmissão e a
segurança energética. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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