“Bolo fofo, quatro olhos, vareta” – Essas palavras ofensivas podem estar sendo ditas aos seus filhos na escola e ele não levou o problema para dentro de casa. O bullying é uma forma de violência que se estabelece nas relações entre pares, especialmente entre estudantes. Especialistas afirmam que quando não combatido, o bullying pode causar traumas. E o problema pode estar mais próximo do que se imagina. Em Cianorte há casos registrados. Pais deram depoimentos à reportagem da Tribuna, que traz algumas histórias nesta edição.
FONTE: TRINBUNA DE CIANORTE/ CIANORTE
“Ele começou a não querer ir mais à escola. Não se interessa mais pelos estudos, não queria comer, e no final das contas reprovou de ano”, contou a Elsa Moreira, mãe de uma criança de nove anos, que no ano passado estudou na rede municipal de ensino. Elsa conta que levou o problema até a direção da escola, e ficou surpresa com a atitude da diretora da instituição. “Ela me disse: ‘quem tá chamando ele de gordo? Aquele magrelo que parece que veio da Etiópia? Fala pra ele não dar bola, porque tem criança que é retardada mesmo’ Foi quando fiquei preocupada, mas como era final de ano esperei acabar e mudei meu filho de escola”, declarou Elsa, destacando que neste ano o menino não quer faltar às aulas de jeito nenhum, está indo bem, e não precisa fazer aulas de reforços.
O caso foi levado à Secretaria Municipal de Educação, que disse desconhecer ações como essa. “Somos totalmente contra. Isso que aconteceu é um absurdo, vamos sim tomar providências”, disse a chefe da Divisão de Ensino Fundamental Municipal, Zilma Lehmckuhl de Lima. Questionada se existe algum programas específico para falar sobre o bullying na rede municipal, Zilma disse que não, mas que o tema é constantemente abordado com professores e membros da equipe pedagógica.
ESTATÍSTICAS
Dados mundiais revelam que o fenômeno envolve até 40% de crianças em idade escolar. Revelam também que os atos de bullying tendem a aumentar nos próximos anos. Deolinda Regina Plácido Casado é especialista no assunto, além de professora de matemática, ela é orientadora educacional em um colégio particular de Cianorte e há anos trabalha com o tema. “Temos que focar na prevenção. Desde 2002 trabalhamos este assunto com todos os profissionais da escola, atendendo tanto as vítimas quanto os agressores e o resultado tem sido positivo”, declarou.
Deolinda conta que para os praticantes de bullying, as consequências podem ser o distanciamento e falta de adaptação aos objetivos escolares. “Também há a supervalorização da violência como forma de obtenção de poder, além da projeção de condutas violentas na vida adulta. Já para aqueles que assistem, os chamados espectadores, sentem insegurança, ansiedade, medo e estresse. Essas são algumas conseqüências que podem ser notadas”, explicou a orientadora.
Outro caso aconteceu com uma menina de seis anos. A mãe dela, que pediu para não ter o nome divulgado, conta que no início deste ano letivo, quando começou a estudar em uma escola particular, a menina disse: “Mãe, estou muito feliz com essa nova escola. Aqui ninguém me chama de baleia”. A mãe declarou que não sabia que a filha sofria esse tipo de violência na escola. “Fiquei surpresa quando ela me disse isso. Ela passava por essa situação e nós nem estávamos sabendo”.
MEDO DE CONTAR
Deolinda explica que muitas crianças têm medo e contar os problemas aos pais. “Eles se sentem coagidos. Às vezes o que começa com uma brincadeira pode ficar mais sério, e é essa repetição que deve ser combatida”. Ela destaca que “o desconhecimento do assunto e a dificuldade no desenvolvimento de ações eficazes, tem contribuído para a disseminação em larga escala, estudos apontam que 80% das vítimas tendem a reproduzir a vitimização nos mais diversos contextos, agravando ainda mais o problema”.
Sara Oliveira é mãe do pequeno Davi, de apenas quatro anos, que usa óculos continuadamente. Ela conta que estava preocupada com isso e que na hora de matricular a criança em uma escola, buscou aquela que desenvolve ações antibullying. “A gente fica preocupada. Ele vai ter que usar óculos sempre e não que ele veja isso como algo anormal, porque não é. E acertei na escolha. Nunca tivemos problemas com relação a isso, mas é porque a escola trabalha na prevenção”, declarou.
Sequência
Nas próximas edições a Tribuna irá trazer mais informações sobre bullying, com depoimentos de especialistas e também falando dos sinais que os pais podem perceber dentro de casa se a criança está sofrendo este tipo de violência.
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